Um Pouco de Tudo, by Aldy Coelho

Fazenda Itaocaia em Itaipuaçu

A Casa Grande está em festa!

Na última semana, tive o prazer de participar de um grande evento, ao lado de grandes referências e mestres de capoeira, chamado “Vadiação na Casa Grande”, em Itaipuaçu, distrito do município de Maricá, no Rio de Janeiro. Além da experiência de praticar esta arte com renomados profissionais e vadiar com os amigos durante um final de semana, o local onde foi realizado o evento e o clima que pairou nestes dias, nos remeteu à ancestralidade dos africanos, que nos deixaram como herança essa genuína arte afro-brasileira.

Aproveito aqui para explicar o porquê do nome vadiação ou do termo vadiar: Antigamente no Brasil, a capoeira praticada pelos escravos africanos era considerada crime. Após o fim do período da escravatura, quem era pego na rua praticando capoeira, era acusado de vadiagem e preso. Só na década de 1940 a capoeira foi legalizada e ensinada em academias e locais apropriados. Por isso, é costume usar o termo vadiar para nos referirmos à prática da capoeira ou o encontro de amigos para jogar, tocar instrumentos, ou apenas conversar sobre a capoeira.

 Capoeiristas participantes do Paraná


Enfim, voltando ao evento, a organização optou por realizá-lo pela segunda vez na Fazenda Itaocaia, construção histórica, construída no século XVIII, e que remonta muita histórias e lendas, como a hospedagem ao naturalista inglês Charles Darwin, em 1832, quando lá esteve estudando a biodiversidade da região da Serra da Tiririca, para incluir em sua famosa Teoria sobre a Evolução das Espécies. Por esta razão, o local também faz parte do roteiro “Caminhos de Darwin”, que inclui várias cidades brasileiras.


Na mesma época em que Darwin esteve na fazenda, período marcado pelo ciclo de produção da cana-de-açúcar na região de Maricá e a utilização de mão de obra escrava africana, também aconteceu um fato que marcou para sempre a história da fazenda. Uma escrava se revoltou com o dono da fazenda, com quem tinha um caso (não se sabe se a relação entre eles era consensual ou não), após ele descobrir seu envolvimento com o escravo reprodutor da fazenda e açoitá-lo. Para vingar-se do senhor, a escrava joga sua filha de três no tacho de melado quente e tenta se esconder no Morro Itaocaia, uma grande pedra que fica ao fundo da propriedade.

O senhor então manda seus capatazes irem atrás da escrava fugitiva, mas quando ela se vê encurralada e sabendo que seu fim também seria o açoite, ela decide se jogar do alto da grande pedra e nunca mais voltar à escravidão. A ossada da criança está até hoje guardada em uma caixa, dentro da capela na Fazenda, com os dizeres: "Aqui se encerrão (encerram) os ossos da inocente Maria Joanna, filha de João Machado Nunes e de sua mulher D. Catharina Luzia Machado, nasceu em 9 de fevereiro de 1838, e faleceu em 12 de julho de 1841". Há 175 anos.

Sobre o fato histórico, o próprio Charles Darwin comentou: "Em torno das casas centrais, estão as cabanas dos negros, cuja forma e posição regulares me lembraram os desenhos das moradas dos hotentotes do sul da África. Isso talvez evoque para essas pobres pessoas no meio da escravidão a casa de seus pais. [...] com exceção de uma velha que, a ser capturada de novo, preferiu se espatifar em pedaços e jogou-se bem do topo da montanha. Fosse ela uma matrona romana e isso seria chamado de patriotismo nobre; como se trata de uma negra, foi chamado de obstinação brutal!".

 Restos mortais da criança

 Ruínas da Senzala

 Ruínas da Senzala

Telha artesanal feita nas coxas dos escravos

A fazenda ainda hospedou, por diversas vezes, Dom Pedro I e sua amante, a Marquesa de Santos, e também foi locação para a gravação da novela Tocaia Grande, em 1996, na extinta Rede Manchete de Televisão. Mais do que essas histórias, a fazenda, que ainda preserva as ruínas da senzala, algumas telhas que eram feitas nas coxas dos escravos e alguns móveis antigos da época, também preserva um clima de mistério e dor daqueles que ali sofreram e não é raro os boatos sobre aparições fantasmas ali.

Mas a possibilidade de vivenciar a prática comum daqueles escravos e compartilhar conhecimentos com grandes profissionais da capoeira, foi um momento que nem o mais belo artigo poderia descrever! A Casa Grande em Itaipuaçu esteve em festa e sempre estará quando amigos e amantes da capoeira estiverem lá para valorizar esta arte e comemorar todas as lições que nos foram deixadas pelos escravos.

 Interior da Capela da Fazenda Itaocaia

 Interior da Capela da Fazenda Itaocaia


Aldy Coelho

(esta crónica é escrita em português do Brasil) 

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